18/03/2026 – “Sem você não teria acontecido” tem noite com poesia e reflexão

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O Espaço Cultural Vinhos Daqui recebeu no sábado 14 de março, o lançamento do livro “Sem você não teria acontecido”(Editora Telha, 2025). O evento fluiu com muito bate-papo, com o autor Ricardo Caulfield, a historiadora Jacqueline Ventapane e a escritora Maria Cristina Martins, que trouxeram suas perspectivas sobre a obra, que aborda sob o formato de poemas, a questão da epidemia de Covid.

Por trazer testemunhos sobre acontecimentos marcantes no período, Jacqueline Ventapane imagina que, no futuro, o livro possa ser lido por historiadores para que se se compreendam os sentimentos que foram vividos nesses anos. “Sentimentos que eu acho que não nos deixaram totalmente. De certa forma, nós ainda temos medo. Qualquer doença que apareça nos acende logo um sinal de alerta.

E, de certa forma, nos acostumamos com o isolamento mesmo após seu fim. Ainda continuamos com a tecnologia, nos falamos por WhatsApp, dificilmente pessoalmente. Tivemos sequelas não tratadas, sentimentos escondidos e um mundo que, diferente do que nós pensávamos, e que me desculpem os otimistas, saiu muito pior do que antes. E você, Ricardo, também tem um pouco desse alerta em uma de suas poesias”.

Em sua fala, Maria Cristina Martins trouxe uma reflexão sobre o fazer poético como instrumento para lidar com a realidade ou modificá-la. Martins é poeta e autora dos livros Ovos de ferro (7letras, 2016), Farândola (Editora Autografia, selo Bem-Te-Li, 2021) e Tudo que foi dito é uma língua desconhecida (edição da autora, 2022).

Para ela, o poema possibilita “uma reflexão diferente do que nos oferecem outros tipos de texto, os narrativos ou dissertativos/argumentativos, os descritivos. Porque um texto poético, por mais que flerte com a prosa, como é o caso da poesia do Ricardo, é feito de elipses, de simbologias, de metáforas, ativa sentidos que vão além da razão, da lógica. O poema permite pensar nas possibilidades para além do real, do concreto. Não é como a salvação do médico, que salva o corpo, é uma salvação da alma, da psique, do espírito, do ânimo, enfim, seja lá o nome que se dê ao que não é puramente físico. E não estou falando de nada especificamente religioso”.

Caulfield foi nessa mesma linha, e abordou a escrita poética, que considera “uma experiência radical porque puxa muita coisa do inconsciente sem a imposição de uma história a ser contada. A poesia pode parecer sem sentido, pode ser melodiosa, pode ser visual, pode ser chula. E te permite falar de uma coisa quando se está referindo a outra”.

E acrescentou:

“Escrever requer um nível de solidão mas durante o processo você não se sente sozinho em nenhum momento, porque a escrita evoca o que cada um tem de mais singular. Essa diferença justamente é o que nos consolida como humanidade”.

O evento não teria acontecido sem a presença do público, das convidadas Jacqueline Ventapane e Maria Cristina Martins – vale a pena procurar por seus livros nas redes ou pelo instagram – e de Simone Bassani que abriu gentilmente as portas do Espaço Cultural Vinhos Daqui para a empreitada.

O Espaço Cultural Vinhos Daqui fica na Rua Correia Dutra 99, galeria, loja 3, Catete, e tem sempre uma programação com música e eventos literários diversos.

Letra

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ORAÇÃO PARA OS INVEJOSOS
Gravação do CD 15 abismos, de 2002
Letra de Ricardo Caulfield

Tanta gente entra, tanta gente sai / Nunca é tarde demais / Este é um mundo particular, /Muitos precisam, mas poucos sabem dar / Ser gente não é o suficiente para não ser devorado / Aos invejosos, eu desejo amor, / Se precisarem de um amigo, eu estou ao dispor / Ao invejoso, eu desejo carinho / Por tentar, em vão, brilhar sozinho / As luzes estão acesas, há lugar nas mesas / Não faltam alimentos, não é um mundo pequeno / Ao invejoso, eu recomendo estudo / Para afastar a cegueira que tornou seu coração surdo / Talvez fome e frio ensinem a vocês o valor de um amigo / O homem no banco da praça viu incêndio, doença e paixão / A vida para ele não tem graça…palavras têm mais imaginação / Senhor abre as asas sobre a dor, a mentira, inércia / O egoísmo, a raiva e a inveja / Permita que as nuvens levem para longe toda a minha saudade / E que seja o céu o melhor cartão-postal quando eu pensar em liberdade

Letra

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OLHOS VERMELHOS
Gravação do CD 15 abismos, de 2002

Meus olhos vermelhos, meus vasos romperam / Minha alma fugiu! / Descobri novidades, injetei liberdade / Mastiguei o Brasil! / Se eu sonhar com você, me acorde e ofenda / Chega de alimentar minha alma com uma venda / Chega!!! / Quando fecho os olhos, você não existe / Mas se os abro, lá está: meu karma, sua imagem / Sua vida, uma bobagem / Quero decifrar você, insaciável enigma! / porque é simultâneo: descobrir e reconhecer! / Engolir o seu vômito / é este o meu ônus! / Quem vive de jurar, paga juros à vista! / Se eu sonhar com você, me acorde e ofenda / Chega de alimentar minha alma com uma venda / Chega!!! / Quando encosto a porta desescuto os seus passos / Mas lá fora lá está: sua vida, um desastre / Os olhos em toda parte / Quero decifrar você, insaciável enigma! / porque é simultâneo: descobrir e reconhecer! / Fogo!Fogo!Fogo! / Quero queimar no inferno do seu ventre! / Beber o vinho no pergaminho da sua língua! / Acender a chama do seu amor até me tornar… carvão sem vida!