Estado de Minas, 18 de março de 2003
Assinada por Kiko Ferreira

O quarteto carioca Vilipêndia lança de uma só vez CD e livro complementares
ROCK E LEITURA

Música e literatura são parceiras históricas, em diversas instâncias e com fluxos nem sempre bem definidos. Na maior parte das vezes são bardos com alguma relação nostálgica com os cantadores medievais que usam a música para contar suas histórias e plantar seus versos nas estantes de discos e de ouvidos que exigem das letras mais do que a característica obrigatória de caber nas melodias.

Apesar de grupos brasileiros de rock pesado, como The Mist e Dorsal Atlântica, terem na literatura um forte ingrediente de sua música, a iniciativa do grupo Vilipêndio foge do comum e amplia as possibilidades de conexão. Formado por Márcio Bukowski (guitarras), Ricardo Caufield (vocal e guitarras), Nilson Guimarães (bateria) e Marcelo Ramiro (baixo), o quarteto carioca lança, ao mesmo tempo, um CD e um livro (disponível gratuitamente na internet no site www.vilipendio.hpg.com.br) batizados de 15 Abismos e intrinsecamente ligados.

O livro, de 110 páginas e formato atraente, semelhante a um encarte de CD, parte de um assassinato misterioso de um casal, formado por uma professora quarentona e seu amante adolescente, que tem como primeira pista o disco da banda, encontrado ao lado da cama onde ocorreram as duas mortes. Partindo da relação que a imprensa imediatamente faz (no livro) entre as mortes e os vários incidentes mortais relacionando adolescentes roqueiros e suas bandas preferidas, o leitor/ouvinte encontra músicas do CD que (re)alimentam capítulos do livro e vice-versa.

Com nomes artísticos tirados da literatura americana, os autores dos rocks barulhentos e pesados, Márcio Bukowski e Ricardo Caufield, procuram mesclar uma junção da poesia baseada em sexo do escritor Charles Bukowski com a visão de mundo cheia de descobertas do personagem principal de O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, Holden Caufield.

Único autor do livro, Ricardo Caufield não usa técnica semelhante ao fluxo de consciência que tornou o livro de Salinger preferido por outsiders de vários gerações (Mark Chapman pediu a John Lennon para autografar um exemplar no dia em que optou por seu assassinato). Sua prosa é convencional, às vezes resvalando em lugares comuns, mas simples e fluente a ponto de atrair os roqueiros que se aventurarem a ouvir o CD. A junção das duas obras soa como se Caufield, depois de ser expulso da escola, fosse a um show do Motorhead e começasse a escrever letras de rock.

Camila Salgado

Virtual
A internet já está disponibilizando o livro da banda Vilipêndio

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