Entrevista com o guitarrista (Marcio) e vocalista (Ricardo) para o site Brazilmetal (novembro/2001):
http://www.brazilmetal.cjb.net

Você sabe que o Rio de Janeiro é famoso pela grande quantidade de bandas de black metal, né? Pois é, aposto que você nunca tinha ouvido falar que lá também surge boas bandas que estão fazendo aquela mistura de thrash, punk e harcore. Um exemplo desse estilo é o Vilipêndio, que acaba de lançar o seu primeiro cd, intitulado 15 Abismos. Leia esta entrevista exclusiva do site Brazil Metal Law, onde conversamos com o Ricardo Caulfield (vocal) e com o Marcio Bukowski (guitarra)!
(Concedida a Paulo Finatto Jr.)

Brazil Metal: O que significa o nome Vilipêndio? Quem teve a idéia de batizar a banda com este nome?

MÁRCIO: Significa ofensa. O nome inicialmente era Vilipêndio de Cadáveres. Foi dado por um amigo nosso, Rodrigo, que é advogado e conhecia o termo.

RICARDO: É um nome que representa o sentido da banda, que é o de afrontar, com letras e sonoridade agressivas que tragam um certo desconforto aos não-iniciados.

Brazil Metal: O cd 15 Abismos é o primeiro lançamento da banda, ou vocês já haviam lançado algo anteriormente?

RICARDO: Gravamos uma fita demo que não nos agradou por completo, então não chegamos a divulgá-la.

Brazil Metal: Como aconteceu a gravação de 15 Abismos?

MÁRCIO: Éramos eu, Ricardo e Alexandre Salinger. Gravei as guitarras-base e os baixos, Ricardo, os vocais e a guitarra-solo e Alexandre, a bateria. Carlos Lopes produziu o CD.

RICARDO: Foi uma experiência nova, indescritível. Eu estava passando por um momento particular bem difícil e a gravação serviu para me injetar ânimo. Estúdio é um grande desafio para uma banda que vai lançar o seu primeiro trabalho.

Brazil Metal: Sempre foi uma meta da banda ter as letras em português, ou isto aconteceu naturalmente?

MÁRCIO: Acho que uma banda brasileira de hardcore tem que ter letras em português, senão perde uma parte do sentido.

RICARDO: Na minha opinião, nosso caso é particular, pois eu tenho um cuidado especial para escrever letras que realmente alcancem o objetivo de contestar a sociedade, sem cair em um lugar-comum. Muito do protesto que se faz hoje em dia perdeu o valor. É quase uma linha de montagem que produz coisas como "Abaixo o governo, blábláblá", são letras muito primárias e não mexem com mais ninguém. Então algumas destas bandas que cantam coisas que já viraram clichês preferem cantar em inglês. Outras bandas cantam em inglês por ambicionarem o público externo. Eu não condeno estas bandas, pois se a música realmente for boa, a letra fica em segundo plano. E, além disso, o inglês realmente combina com o estilo. Mas no caso do Vilipêndio as letras em português tem uma importância especial no trabalho.

Brazil Metal: Os 15 Abismos representam as 15 músicas do cd? Qual é esta definição?

MÁRCIO: Exato, mergulhe neles e tente voltar.

RICARDO: Sim, por entender que cada música é para ser encarada como uma experiência radical, e serem bem diferentes entre si, acho que 15 Abismos foi um título bem escolhido. 15 Abismos é um conceito que traz independência (a diferença entre nossas composições são como os abismos, que, sozinhos, são imponentes) e uniformidade (Por mais diferentes que sejam, os abismos tem algo em comum, no caso, uma característica geográfica. E nossas músicas também têm algo que as une, por mais diferentes que sejam: nosso estilo anárquico de tocar).

Brazil Metal: Esta formação do Vilipêndio é a única, ou a banda já passou por trocas de integrantes?

MÁRCIO: Já tocamos com outras pessoas. Mas finalmente conseguimos uma formação sólida e eficiente. Nílson e Marcelo são bons músicos e pegam rápido as coisas.

Brazil Metal: Como acontecem as composições da banda?

RICARDO: Para o disco 15 Abismos, em algumas músicas como "Verde e amarelo", o Márcio fez os riffs e eu encaixei uma melodia para o vocal. Para letra, eu coloquei uma que eu tinha guardada. Este é um bom exemplo de como funciona a parceria entre o Márcio e eu. Há outros casos como "Ambição", que foi feita só por mim. Isto acontece porque, embora hoje eu seja só vocalista, eu também tenho uma noção de guitarra. Quando faço as músicas sozinho, eu posso partir da letra, da melodia ou dos riffs. Tento variar para as músicas não ficarem repetitivas. No disco, há também uma música, "A Viagem", que foi feita a partir de uma letra em parceria minha com dois amigos. Para o próximo trabalho, vamos contar também com as contribuições dos novos integrantes da banda.

Brazil Metal: E como pintou a oportunidade de ter como produtor do cd, o Carlos Lopes (Dorsal Atlântica)?

MÁRCIO: Carlos é amigo do Ricardo há anos. E o Dorsal é uma influencia pra nós.

Brazil Metal: Como vocês veem a cena de metal carioca para uma banda do estilo de vocês, ou seja, que mistura metal, thrash e hardcore?

MÁRCIO: Não sabemos ainda como seremos recebidos e quem vai nos abraçar. O estilo da banda tem influências diferentes, e o som é muito agressivo. Talvez o pessoal do metal goste da gente, talvez os punks. Talvez nos odeiem vamos aguardar.

RICARDO: Acho que a cena no Rio é difícil não só para nós, mas para todos. Há poucos lugares para tocar, mas aos poucos as coisas estão melhorando e o underground vai se organizando. Para o caso particular da banda, só vai gostar da gente quem tiver atitude. Há muitas bandas alternativas que tocam um popzinho e se dizem punks. Não dá para gostar do Vilipêndio, se você estiver só querendo bancar o revoltadinho.

Brazil Metal: A banda vem fazendo shows recentemente?

RICARDO: Aqui no Rio é bem difícil tocar em algum lugar sem deixar um cheque cobrindo um número determinado de ingressos. Só que como uma banda nova como a nossa vai atrair 60 pessoas (isto, no mínimo), se poucos nos conhecem (leve em consideração que o cenário alternativo do Rio ainda está se fortalecendo)? O resultado é que estamos agendando montar eventos com várias bandas novas e a participação em eventos promovidos por outras pessoas. Antes disso, estávamos ensaiando com a nova formação, pois o CD foi gravado com a participação de gente que não está mais conosco. Agora, estamos prontos, aguardando este nosso nosso investimento em divulgação e contatos, dar os seu primeiros frutos.

Brazil Metal: Vocês já planejam um futuro lançamento?

MÁRCIO: Vamos gravar outro, com esta formação. Possivelmente em 2002.

Brazil Metal: O cd 15 Abismos vem sendo bem aceito no Brasil? Vocês planejam exportá-lo também?

RICARDO: Ele saiu agora, é cedo para avaliarmos. Por enquanto, está dentro do nosso planejamento. Quanto a exportar, se houver interesse de algum selo estrangeiro, por que não?

Brazil Metal: Para finalizar, deixe uma mensagem para todos os visitantes do Brazil Metal Law.

MÁRCIO: Escute nosso som. Se não conseguir sair de um dos abismos, feche os olhos, tape os ouvidos e prenda a respiração. Aos poucos, as coisas voltam ao normal.

RICARDO: A todos vocês que curtem o som pesado, seja qual for o estilo, dou os parabéns, pois são vocês que tornaram o Brasil um lugar viável para o underground, com lançamentos de discos, revistas diversas e sites de ótima qualidade como este. Um abraço, a gente se vê.

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