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Vilipêndio mostra agressividade com inteligência
Por Fernando Souza Filho
17 de agosto de 2007

 

Tempero do metal oitentista, pitadas de punk/hardcore e letras cantadas em português. Essa é a receita básica que encontramos em Um Segundo De Glória, novo álbum do grupo carioca Vilipêndio, que já está na estrada desde a virada do milênio e é formado por Ricardo Caulfield (vocal), Márcio Bukowski (baixo), Thiago Sobral (guitarra) e Alex Fersan (bateria).

"O grupo começou como um projeto que misturava nossas influências, justamente o punk, o hardcore e o metal. Fazíamos só por diversão. Era só um projeto mesmo, sem nunca ter feito uma apresentação. Mas, como tínhamos um material original, resolvemos lançar um CD (15 Abismos, de 2001), que saiu sem termos lançado uma demo antes", lembra o vocalista Ricardo Caulfield. "Contudo, considero o verdadeiro início da banda em 2002, quando tivemos a formação estabilizada e passamos a nos apresentar no circuito underground do Rio."

Naquela mesma época, o vocalista escreveu um livro com o mesmo título do CD da banda. "As letras do nosso CD de estréia me inspiraram a escrever o romance, também batizado de 15 Abismos, em que cada capítulo foi inspirado por uma música, seguindo a ordem das faixas do disco. O livro abordou temas como violência e rock, entre outros, e foi disponibilizado gratuitamente na página do Vilipêndio", lembra ele.

Cantando em português, o grupo anda meio na contramão da cena, dominada por grupos que cantam na língua bretã. "Bandas de metal cantam em inglês. Nesse ponto, acho que somos mais uma banda de hardcore do que de metal. As letras falam do Brasil. Precisam ser entendidas, principalmente, por brasileiros", defende o baixista Márcio Bukowski. "Usamos metáforas, poesia, sarcasmo e deboche. Há até humor nas letras. Mas é um humor sombrio, que muitas vezes as pessoas não entendem. Eu não conseguiria me expressar assim em inglês. Esta valorização da letra é uma diferença em relação à maioria das bandas, porque às vezes até as letras de protesto soam parecidas. Acho que se fugirmos do óbvio fica muito mais contundente", completa Caulfield.

Essa parte lírica é justamente uma das preocupações principais da banda. "Não é só a parte musical, o Vilipêndio tem um lance forte com literatura, as letras são uma parte importante da música. Cantar em nossa língua é poder conversar com quem está escutando a banda", complementa o guitarrista Thiago Sobral. "As letras são a maior virtude desse trabalho. Acho que as composições também são interessantes. Tentamos sempre fazer algumas coisas diferentes do convencional pra termos algum diferencial na sonoridade, mesmo sendo porrada", diz Caulfield. "Hoje, quando o rock soa tão inofensivo e segmentado, acho que cantar em português e mesclar estilos significa a ousadia de propor um rock original, que expressa inconformismo e levanta essa possibilidade do rock pesado em português. Acho que virou tabu, existe um público que consome punk e metal e que é meio ignorado porque as gravadoras pensam que não exista uma mesma pessoa que possa gostar dos dois estilos. Acho que as pessoas estão se esquecendo de tantas bandas excelentes que já fizeram essa mistura, principalmente as bandas brasileiras da década de 80. Muitos novos grupos começam e já vão cantando em inglês, sem nenhuma preocupação com a letra, até mesmo fazendo colagens de frases em inglês de letras de outros grupos. Existe hoje essa obsessão por soar como outros grupos famosos. Eu não vou me preocupar em soar como outro cara que tem uma história de vida completamente diferente da minha. Então essa é a maior qualidade: usarmos nossa criatividade, sem nos colocarmos muitas barreiras de estilo, para soarmos agressivos e pesados, e isso inclui explorar ao máximo também o poder das letras."

Com tantas nuanças interessantes, o trabalho novo já é mais pedido pelo público do que o anterior. "O público gosta muito mais das músicas novas. Já pedem algumas, como Anestesiado, que é a mais experimental. Estranho isso", brinca Bukowski. "Chamou minha atenção o fato de cada pessoa ter sua música favorita. E isso demonstra que todas as faixas podem ser as favoritas de alguém. Como é um CD bem agressivo, é preciso fazer uma leitura também da crítica. Saber se o crítico está fazendo uma análise ou se sentiu atingido pelo teor das letras. A crítica desse disco na Rock Brigade foi interessante porque apontou para o fato de que havia muitos trechos lentos naquele disco e isso dificultava na audição. E acho que foi um consenso nosso neste trabalho novo de que teríamos mais punch se não tivéssemos tantos trechos mais cadenciados. É legal ter mudanças de andamento em algumas faixas, mas diminuímos o número de vezes em que isso acontecia, afinal, uma faixa faz parte de um CD. Você pode ter 10 músicas excelentes que juntas se tornem um disco repetitivo", diz Caulfield.

 

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